Gestoras projetam Selic em 11,8% ao fim de 2026 com câmbio “segurando” a inflação

A decisão dos Comitês de Política Monetária do Brasil e dos Estados Unidos sobre o patamar da taxa básica de juros ainda não foi anunciada, mas as gestoras de fundos multimercados ouvidas na pesquisa Pré-Copom da XP são unânimes: nada deve mudar nos juros atuais — em 15% ao ano no Brasil e entre 3,5% e 3,75% ao ano nos EUA.

A grande mudança na percepção macroeconômica captada pela pesquisa não vem de dinâmicas locais, mas de fora. O levantamento aponta que o cenário global passou a exercer dominância sobre os indicadores domésticos.

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Esse fluxo é relevante porque, ao encontrar um ambiente externo mais “benigno”, o investidor estrangeiro aumenta o apetite por risco em países emergentes, o que valoriza a moeda brasileira e, por consequência, ajuda a controlar os preços internamente, derrubando a inflação e abrindo espaço para cortes de juros futuros.

Em um ano, a projeção das gestoras para os juros mudou significativamente. Em janeiro de 2025, elas estimavam que a Selic estaria em 15% ao fim de 2026. Agora, essa projeção recuou para 11,8%.

O raciocínio que guia os gestores é que, quando os juros nas grandes economias (especialmente nos EUA) estabilizam e o cenário global se torna mais favorável, o real ganha força. Um real mais valorizado reduz o custo de produtos importados e commodities, o que atua como um “freio natural” para a inflação brasileira.

Com a inflação sob controle via câmbio, o Banco Central ganha espaço para projetar juros menores no futuro. De acordo com o relatório da XP, essa dinâmica explica por que as expectativas para o final de 2026 melhoraram drasticamente, mesmo diante de ruídos fiscais que antes pressionavam o mercado.

Risco local e ganho externo

Em relação à Bolsa, o levantamento da XP aponta para uma redução na convicção dos gestores quanto aos ativos domésticos (B3). O percentual de posicionamento “comprado” recuou para 42%, frente aos 64% observados em setembro.

Esse movimento de cautela local é acompanhado por um aumento do apetite pelo mercado acionário norte-americano (offshore EUA), evidenciando que, diante da volatilidade interna, as casas de gestão preferem capturar a recuperação econômica diretamente no cenário global.

Segundo a pesquisa com gestoras da XP, esse realinhamento reflete a atual dominância do fator macro global, que tem levado os investidores a preterir, momentaneamente, o risco específico das ações brasileiras em prol de mercados internacionais mais consolidados.

Fonte: Pesquisa com gestoras XP

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Juros em queda

A mudança na percepção de longo prazo é um dos destaques da pesquisa. Em janeiro de 2025, o mercado projetava uma Selic de 15% para o final de 2026, em um contexto de “incertezas fiscais e inflação resiliente”.

O cenário agora é outro. Um ano depois, a projeção caiu para 11,8% ao fim de 2026 — enquanto a mediana de mercado, de acordo com o Boletim Focus, está em 12,5%.

Segundo a equipe de economistas da XP, composta por Clara Sodré, Luiz Felippo, Pedro Frota e José Pini, as projeções foram mudando ao longo de 2025 “à medida que o ambiente externo se tornou mais favorável e o real passou a se fortalecer”.

Inflação

O otimismo com o cenário externo refletiu diretamente nas expectativas para o IPCA. Após atingirem um pico de 4,7% em meados de 2025, as projeções para a inflação de 2026 recuaram para 4,0% no levantamento atual.

Esse movimento coloca os gestores em alinhamento com as projeções do Boletim Focus, consolidando a visão de que o choque de custos foi absorvido pela valorização cambial.

Fonte: Pesquisa com gestoras XP

Valorização do real

O posicionamento dos gestores reflete essa confiança na moeda local. Atualmente, 72% das gestoras consultadas estão “compradas” em real (apostando na sua valorização), uma alta expressiva frente aos 33% registrados em janeiro de 2025.

O “Kit Brasil” — que combina juros ainda elevados com uma moeda fortalecida pelo cenário externo — tornou-se a estratégia predominante entre os multimercados macro, segundo a pesquisa.

“Apetite ao risco”

O novo cenário impulsionou a performance dos fundos multimercados, que voltaram a apresentar resultados acima do CDI no curto prazo. Com maior clareza sobre a trajetória dos juros e o comportamento do câmbio, as gestoras aumentaram a convicção em suas teses.

Segundo a XP, houve um aumento no “apetite a risco”, com os gestores saindo de posições defensivas para estratégias mais direcionais.

Ainda assim, a corretora reitera a recomendação de cautela para o investidor pessoa física: “Investimentos nos mercados financeiros estão sujeitos a riscos de perda superior ao valor total do capital investido”, lembra o relatório, que sugere um horizonte de 36 meses para alocação nessa classe de ativos.

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