Dólar fraco é política desenhada desde a campanha eleitoral nos EUA. Dará certo?

O dólar vive um período de desvalorização contínua desde janeiro de 2025, quando Donald Trump reassumiu a presidência dos Estados Unidos. E está cada vez mais claro que isso não é apenas efeito indireto da agressiva política externa americana. Economistas e centros de pesquisa em todo o mundo tem alertado que o movimento faz parte de uma estratégia do governo de enfraquecer a própria moeda ante divisas dos pares, como euro, yuan e iene.

A tática da Casa Branca segue conselhos de Stephen Miran, que foi um dos principais assessores econômicos de Trump na campanha eleitoral de 2024 e que foi nomeado diretor do Fed. Tanto que voltou a circular nas redes um documento que o economista preparou no final daquele ano (“Guia do Usuário para a Reestruturação do Sistema Global de Comércio”), sugerindo políticas para desestabilizar a ordem mundial a favor dos Estados Unidos.

Elas são as bases do “Acordo de Mar-A-Lago”, que Trump tem seguido quase à risca para reescrever as regras da governança mundial.

“Para fortalecer suas próprias moedas, os gestores de reservas precisam vender dólares”, diz o texto. “À medida que suas moedas valorizam, os Estados Unidos receberão uma vantagem competitiva que ajuda nossos setores negociáveis e manufatureiros”, argumenta Miran.

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Esse tipo de intervenção americana autorizada pelo Departamento do Tesouro e executada pelo Federal Reserve de Nova York ocorreu apenas três vezes desde 1996: comprando ienes japoneses em junho de 1998, comprando euros em setembro de 2000 e vendendo iene em março de 2011.

Nesta semana, cresceram os rumores de que o Fed e o BoJ (do Japão) estariam prestes a reeditar a ação conjunta do passado, com a autoridade americana vendendo títulos dos EUA e comprando bônus japoneses.

Na última sexta-feira (23), sites e jornais noticiaram que o Fed de Nova York teria entrado em contato com as mesas de negociação de moedas sob instruções do Tesouro para verificar a taxa de câmbio dólar-iene. Historicamente, essas “verificações de taxas” são um sinal de que uma intervenção conjunta pode ocorrer. 

Mesmo sem essa operação, o movimento rumo a um dólar mais fraco continua. NO ano passado, ele perdeu 9% de valor ante uma cesta de moedas, sendo que a desvalorização ante o euro ficou próxima de 12%. Ontem à noite, a cotação do dólar ante o euro atingiu 1,20, o menor valor desde 2021.

E Donald Trump deu a entender que o movimento é intencional. Ao responder perguntas de jornalistas sobre o que achava dessa desvalorização, ele respondeu que achava “muito bom”. “Eu acho que o valor do dólar — veja os negócios que estamos fazendo. O dólar está indo muito bem. (…) Se você olhar para a China e o Japão, eu vivia brigando com eles, porque eles sempre queriam desvalorizar o iene. Sabia disso? O iene e o yuan, e eles sempre queriam desvalorizar. Eles desvalorizam, desvalorizam, desvalorizam”, disse Trump.

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E os efeitos?

E o que essa política pode significar? O que se sabe é que, de fato, algumas das propostas do texto nortearam o primeiro ano da nova gestão Trump: a adoção de tarifas comerciais como forma de coerção de parceiros e adversários geopolíticos; a redução de gastos com a Otan para forçar os aliados a investirem mais em defesa; a tentativa de reduzir os preços da energia por meio da ampliação da oferta; e os esforços para enfraquecer o dólar— sem arriscar sua dominância global, além de limitar um aumento nos rendimentos dos títulos do Tesouro.

Segundo análise do Council of Foreign Relations, a Casa Branca acredita que um dólar mais fraco sustentará as exportações americanas e puxará para baixo os rendimentos do títulos do Tesouro, contribuindo para facilitar os empréstimos a famílias e empresas — isso sem falar no alívio nos pagamentos de juros sobre a dívida pública.

Mas os especialistas sempre fazem o alerta de que o dólar depreciado pode contribuir para uma inflação persistente, limite o espaço que o Federal Reserve terá para cortar as taxas ao longo do ano.

Ainda que uma mudança na gestão do Fed para alguém mais receptivo a essas ideias pudesse ajudar no plano, uma perda de reputação com a percepção de falta de independência da autoridade monetária poderia cobrar o preço na forma de uma atratividade menor pela dívida dos EUA, especialmente por investidores estrangeiros, aumentando a volatilidade do mercado. Com isso, os rendimentos do Tesouro de longo prazo poderiam subir – e não cair como o esperado – pesando no crescimento econômico.

E para o resto do mundo?

Segundo o think tank ODI Global, os EUA agora são uma fonte crescente de instabilidade econômica e geopolítica. “Isso provavelmente continuará no primeiro semestre de 2026 e além, impulsionado pela dinâmica das taxas de juros e pela política comercial dos EUA voltada para reduzir o déficit externo dos EUA”.

Na opinião do grupo de aconselhamento, a diversificação global em arranjos de ouro e moedas alternativas pode continuar reduzindo a demanda por dólares. “Um dólar mais fraco oferece algum alívio para países com altos encargos de dívida externa denominada em dólares. Exportadores de commodities também podem se beneficiar de receitas mais firmes em moeda local; Mas economias dependentes das importações terão benefícios limitados de repassagem”, diz.

Juntas, essas dinâmicas sugerem que 2026 testará mais a resiliência e a capacidade de políticas dos países de baixa renda do que seu impulso de crescimento. “Crucialmente, navegar por um crescimento mais lento, finanças fragmentadas e inflação persistente exigirá estruturas macroeconômicas credíveis que promovam mercados de capitais domésticos mais profundos e investimentos internos que aumentem a produtividade”, afirma.

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