Vários economistas chineses de destaque defenderam a flexibilização das restrições à entrada e saída de recursos do país, argumentando que a fraqueza do dólar cria uma oportunidade histórica para ampliar o apelo global do yuan ao aumentar sua conversibilidade.
Em movimento que representaria uma mudança estrutural para a segunda maior economia do mundo, Miao Yanliang, estrategista-chefe da China International Capital Corp., afirmou em artigo publicado na terça-feira que as condições estão se tornando favoráveis para avançar com essas reformas sem necessariamente provocar saídas maciças de capital.
Na mesma linha, Ju Jiandong, professor de finanças da Universidade Tsinghua, classificou este ano e o próximo como uma “janela estratégica” para abrir a chamada conta de capital, já que a valorização do yuan cria um ambiente favorável em meio à elevação dos riscos geopolíticos.
“Quanto mais a China abrir sua conta de capital e permitir maior flexibilidade cambial, mais poderá atrair fluxos de entrada”, disse Miao, ex-economista-chefe do órgão regulador de câmbio da China. “Especialmente quando o dólar entra em um ciclo estratégico e sustentado de depreciação e o yuan passa por um ciclo de valorização, este é exatamente o momento certo para elevar o grau de abertura da conta de capital.”
As declarações sucedem comentários do presidente Xi Jinping, feitos em 2024 e divulgados recentemente, nos quais detalhou a ambição de tornar o yuan “amplamente utilizado” no comércio e nas finanças globais, além de alcançar o status de moeda de reserva.
A sequência de discursos e publicações nas últimas semanas reforça as especulações de que as autoridades chinesas podem colocar a maior liberdade de fluxo de capitais no centro da estratégia para ampliar o uso internacional do yuan. O avanço rumo à conversibilidade da moeda foi interrompido após uma desvalorização abrupta em 2015, e o ímpeto para reformar a conta de capital perdeu força nos anos seguintes.
Pela primeira vez em uma década, vozes influentes na academia e no setor financeiro discutem publicamente a possibilidade de ceder mais controle para aproveitar a desconfiança em relação à hegemonia do dólar, que vem impulsionando a diversificação por parte de bancos centrais e investidores.
O dólar encerrou 2025 com a maior queda anual em oito anos, após meses de política econômica imprevisível durante o segundo mandato de Donald Trump. Já o yuan registrou seu melhor desempenho anual desde 2020, em termos nominais.
Parte central do novo cálculo chinês também decorre do descompasso entre sua posição como potência manufatureira global e o alcance limitado de sua moeda no exterior. A China mantém há anos um regime de câmbio flutuante administrado para o yuan, enquanto restrições a investimentos transfronteiriços e remessas pessoais mantêm a conta de capital amplamente fechada.
Nos últimos meses, autoridades vêm sinalizando maior ambição de reformar o yuan e a conta de capital, que acompanha os fluxos de investimento.
A proposta apresentada pelo Partido Comunista em outubro para o próximo plano econômico até 2030 incluiu o compromisso de “avançar na internacionalização do yuan e ampliar a abertura da conta de capital”. A formulação é mais ousada que a do plano quinquenal anterior, que defendia promover a globalização da moeda de forma “estável e prudente”.
A China ainda tem um longo caminho para atingir esse objetivo. Apesar de ganhar espaço na liquidação de comércio e no financiamento internacional, a participação do yuan nas reservas globais é inferior a 2%, segundo o Fundo Monetário Internacional, ocupando a sexta posição, muito atrás do dólar.
Os controles de capital seguem como o principal obstáculo à visão de Xi, embora a China tenha adotado medidas nos últimos anos para flexibilizar restrições. Investidores e empresas ainda precisam de autorização para movimentar recursos para dentro e fora do país ou recorrer a canais específicos, o que limita a integração dos mercados domésticos ao exterior e reduz o apelo da moeda.
O risco de saídas expressivas de capital, com potencial de desestabilizar mercados e a economia, é a principal preocupação das autoridades ao considerar uma liberalização mais ampla.
A última grande fuga de capitais ocorreu em 2015, após uma tentativa malsucedida de migrar para um regime cambial mais orientado pelo mercado gerar pânico entre investidores e forçar intervenção do banco central. As reservas internacionais da China caíram cerca de US$ 1 trilhão em aproximadamente dois anos, levando as autoridades a reforçar os controles.
Segundo Miao, o ambiente interno e externo mudou significativamente desde então.
Ele afirmou que investidores estrangeiros têm necessidade crescente de aplicar em ativos chineses, à medida que os EUA perdem atratividade com as tarifas elevadas e movimentos geopolíticos adotados por Trump. Ao mesmo tempo, famílias e empresas chinesas já adquiriram volume relevante de ativos no exterior por canais autorizados, reduzindo pressões potenciais de saída, disse Miao.
Li Xunlei, economista-chefe da Zhongtai Financial International Ltd., que participou de um seminário econômico organizado pelo primeiro-ministro Li Qiang em abril, apresentou argumento semelhante em artigo publicado na semana passada.
Segundo ele, a significativa subvalorização da moeda chinesa, com base na paridade do poder de compra, decorre da falta de liquidez global. Uma conta de capital mais aberta poderia ampliar a disponibilidade de yuan no exterior, o que tenderia a favorecer a valorização da moeda.
Apesar disso, após décadas de cautela, as autoridades chinesas devem manter postura prudente e evitar mudanças bruscas.
“Pode haver algum espaço, na margem, para testar determinadas políticas”, disse Gary Ng, economista sênior do Natixis SA. Segundo ele, a China pode adotar medidas graduais para promover sua moeda, como incentivar a negociação de algumas commodities em yuan ou utilizá-lo na liquidação e no financiamento de projetos no exterior.
Xiao Sheng, autoridade da Administração Estatal de Câmbio, indicou que o foco deve recair na otimização dos canais existentes de investimento transfronteiriço.
Em artigo publicado na quarta-feira, Xiao afirmou que o regulador tornará mais simples para estrangeiros utilizarem programas como o sistema Qualified Foreign Institutional Investor. As autoridades “ampliarão a oferta de políticas para acelerar investimentos e financiamentos transfronteiriços”, disse.
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