
A escalada da guerra no Oriente Médio deve custar caro à economia brasileira no biênio 2026-2027, adicionando até 1 ponto percentual à inflação e ameaçando anular os ganhos do país com a exportação de petróleo, de acordo com o Relatório de Acompanhamento Fiscal (RAF) nº 111, publicado pela Instituição Fiscal Independente (IFI).
O documento alerta que, em um cenário de tensão prolongada com o barril do Brent superando a marca de US$ 100, o Brasil corre o risco de sofrer um choque de oferta capaz de comprimir a renda das famílias e deprimir o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB).
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Cenários para a inflação brasileira
Se, em dezembro de 2025, a projeção do IFI era para um preço médio do Brent estável a US$ 66,50 para o biênio, agora há duas trajetórias possíveis para os preços no Brasil: um recuo em relação à cotação atual, mas ainda acima do que era esperado no fim do ano passado; e uma manutenção da cotação no patamar de US$ 100.
Nos dois casos, haverá impacto no preço da gasolina, no diesel e nos fretes, o que acaba por contaminar toda a cadeia produtiva nacional.
No primeiro cenário, classificado como de normalização, a premissa é de que o choque se dissipe gradualmente, acompanhando a curva de contratos futuros. Nessa hipótese, o barril do Brent recuaria para médias de US$ 86,90 em 2026 e US$ 74,00 em 2027.
Mesmo com esse alívio progressivo, a instituição calcula que seria necessário um reajuste de 25% no preço da gasolina nas refinarias para corrigir a defasagem interna frente ao mercado internacional. O resultado dessa correção seria um impacto adicional sobre o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de 0,7 ponto percentual em 2026 e de 0,2 p.p. no ano seguinte.
No segundo cenário, que prevê a persistência do conflito e danos estruturais à produção no Oriente Médio, os preços do petróleo poderiam crescer a um ritmo de 2% ao ano, levando o Brent a uma média de US$ 96,80 em 2026 e atingindo expressivos US$ 107,90 em 2027.
Para lidar com essa disparada, a defasagem exigiria que as refinarias repassassem uma alta de 40% aos combustíveis. Consequentemente, a inflação doméstica sofreria um baque muito mais robusto, somando 1,0 ponto percentual ao IPCA logo em 2026 e mais 0,5 p.p. no ano subsequente.
A modelagem da IFI aponta que, em média, a cada 10% de elevação no preço do Brent, a inflação do país tende a subir 0,2 ponto percentual. Na tentativa de amortecer esse efeito sobre o bolso do consumidor, o governo federal já precisou recorrer a medidas provisórias de estabilização, criando subvenções ao diesel e ao gás de cozinha (GLP), além de promover desonerações de PIS/Cofins sobre o querosene de aviação e o biodiesel.
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O impacto no PIB e os riscos econômicos
No que diz respeito à atividade, a IFI adotou uma simplificação metodológica em seu exercício e optou por manter as estimativas de crescimento do PIB real inalteradas em 1,7% para 2026 e 2,0% para 2027. A elevação dos índices, portanto, resultará num crescimento apenas do PIB nominal, refletindo puramente o aumento do deflator da economia, e não um ganho genuíno de produção.
Apesar de o Brasil ser um exportador líquido de petróleo com setor externo relativamente sólido, o relatório alerta que os benefícios da alta do barril são passageiros. O alívio nas contas públicas — garantido num primeiro momento pela disparada na arrecadação de royalties e dividendos — tende a ser superado por uma severa deterioração macroeconômica se os preços continuarem altos. O risco, aponta o documento, “é assimétrico” e pende para o lado negativo.
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A manutenção prolongada da energia em patamares elevados configura um clássico choque de oferta, cenário temido pelos formuladores de política econômica por unir “maior inflação com menor crescimento”.
Para evitar o descontrole dos preços, o Banco Central seria obrigado a ancorar as expectativas, consolidando “condições financeiras mais restritivas com juros elevados por mais tempo e o enfraquecimento da demanda externa”. Na prática, a combinação desse aperto monetário resulta na compressão direta da renda real das famílias, neutralizando os ganhos iniciais com o petróleo e atuando como um freio brusco na atividade econômica do país.
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