Chance de comprar dólar a R$ 5 está se esgotando? Veja o que dizem os especialistas

Após um período de trégua, o dólar voltou a ganhar força frente ao real desde a segunda semana de maio. Da mínima de R$ 4,88 no dia 11, a moeda americana já subiu cerca de 2,5%, revivendo uma velha questão entre investidores: a janela para comprar dólar na faixa de R$ 5 pode estar se fechando? Antes é preciso entender os motivos da alta recente, que misturam fatores externos e domésticos.

Lá fora, o principal motor é a política monetária, após o Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA) sinalizar que pode aiar corte de juros, mantendo taxas elevadas e atraindo investidores em busca de segurança. Além disso, os juros futuros de países desenvolvidos como um todo subiram, tornando os títulos de renda fixa dessas nações mais atraentes em comparação aos mercados emergentes, como o Brasil.

Internamente, o País enfrenta seus próprios desafios. A piora na percepção do risco fiscal e o início antecipado do trade eleitoral trouxeram volatilidade ao mercado.

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Dólar a R$ 5 está com dias contados?

Não há consenso sobre o próximo movimento da moeda americana.

Ricardo Trevisan, CEO da Gravus Capital, observa que “o movimento desde a segunda semana de maio tem cara de correção técnica, não de virada de tendência. O real chegou a operar na mínima de dois anos, em torno de R$ 4,88, e a devolução parcial para a casa de R$ 5,00 é coerente com uma realização após uma valorização expressiva”.

Já Leonardo Netto, banker da Guardian Capital, destaca o peso das questões políticas no câmbio. “Com a proximidade das eleições, é normal que o risco-país suba e, consequentemente, o dólar também. Foi o que vimos acontecer no dia 13 de maio com a divulgação da conversa entre Flavio Bolsonaro e Vorcaro, quando o mercado percebeu que a campanha eleitoral tinha começado”.

Netto acrescenta que, estruturalmente, a tendência histórica é de alta: “no médio e longo prazos o dólar sempre se valoriza frente ao real. Desde 1994 (lançamento do real) o dólar sobe numa média de 5,5% ao ano aqui no Brasil”.

A mudança no fluxo global de investimentos também é um fator determinante para a força atual do dólar, explica Sérgio Samuel dos Santos, economista do Sistema Ailos. “O fluxo de dólar global mudou com o Fed sinalizando maior cautela no ciclo de cortes de juros. A reprecificação da taxa de juros americana, que atrai investidores em busca de segurança, somada aos investimentos massivos em ativos ligados a IA, explica esse movimento”.

Hora de comprar? Não é bem assim

Apesar da divergência sobre os próximos passos do câmbio, especialistas consideram essencial ter uma fatia dos investimentos no exterior, mas não recomendam comprar apenas porque esperam que o dólar vá subir no curto prazo.

Em vez disso, o investidor deve “usar o cenário atual para construir uma exposição internacional gradual, diversificada e focada em ativos de qualidade, tratando o dólar como proteção patrimonial e não como aposta de curto prazo”, aconselha Ângelo Belitardo, gestor da Hike Capital.

Já Ricardo Trevisan alerta contra a reação emocional ao movimento do câmbio: “o risco aqui é o investidor aumentar exposição correndo atrás da cotação, justamente depois que o câmbio já se moveu. A postura sensata é rebalancear, não concentrar”.

O conselho de especialistas é não buscar a moeda em si, mas ativos dolarizados que paguem juros ou tenham potencial de crescimento no longo prazo.

O que fazer na prática

Para quem busca exposição ao mercado internacional agora, o consenso entre os especialistas é que a renda fixa americana de alta qualidade, como títulos do Tesouro dos EUA (Treasuries) e títulos de dívida corporativa, é a porta de entrada ideal.

“Hoje, a renda fixa em dólar merece destaque, porque a alta da curva americana elevou os yields (rendimentos) e tornou alguns bonds e ETFs de bonds mais interessantes, desde que o investidor tenha cuidado com duration (prazo de retorno)”, aponta Ângelo Belitardo, gestor da Hike Capital. Papéis de dez anos do governo americano oferecem atualmente retorno de cerca de 4,4% ao ano.

Ricardo Trevisan concorda: “para o investidor que busca essencialmente o hedge (proteção) cambial, a renda fixa em dólar é o instrumento mais direto e de menor volatilidade”.

Na renda variável, o foco recai sobre setores da bolsa com fundamentos sólidos e exposição a tendências globais. Leonardo Netto cita ações de tecnologia, defesa, energia, infraestrutura energética e mineração de minerais críticos, além da expansão da energia nuclear. Já Sérgio Samuel lembra que investir nos EUA permite acessar setores sub-representados no Brasil. “A economia americana é a maior do mundo e apresenta oportunidades diferentes das que temos no Brasil, principalmente em tecnologia. Hoje, o Ibovespa possui uma composição bastante concentrada no setor bancário e em commodities”.

Sobre quanto colocar, Tomás Roque, analista sênior de alocação de inteligência da Avenue, cita um estudo de 2024 da FGV que mostra que de 16% a 18% do consumo do brasileiro é afetado pelo câmbio. “Para neutralizar o consumo, essa é a porcentagem que o investidor deveria ter em alocação internacional”, recomenda. “A alocação no exterior deve ser algo mais estrutural; os ruídos de notícias e manchetes no curto prazo não deveriam influenciar a tomada de decisão, uma vez que a carteira foi feita para durar”, resume Roque.

Netto, da Guardian, reforça a importância de ter paciência: “investir na Bolsa americana é uma excelente ideia no longo prazo, mas exige cautela. Não entre a qualquer preço, espere o momento adequado de risco-retorno e escolha bem os setores”.

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