Os rumores de que Donald Trump, presidente dos EUA, indicaria Kevin Warsh para substituir Jerome Powell no Federal Reserve não foram bem recebidos pelos investidores globais na manhã desta sexta-feira (30). O ETF (fundo de índice) EWZ, de ações brasileiras, chegou a cair cerca de 2%.
Após a confirmação da decisão, por volta das 9h (horário de Brasília), as baixas foram amenizadas. O Ibovespa caía 0,2% perto de 182.850 pontos às 11h30, enquanto o dólar subia 0,6%, a R$ 5,22 — movimentos que indicam cautela, mas sem pânico, e ainda próximos das máximas do mês.
Para Thiago Calestine, economista e sócio da Dom Investimentos, a reação inicial de cautela foi natural, mas não deve ser interpretada como sinal de deterioração estrutural para os mercados emergentes. Segundo ele, “o mercado torce o nariz no curto prazo, mas a médio e longo prazo a escolha tende a ser positiva” – assim, a escolha de Warsh não deve ser um freio para o mercado brasileiro.
Parte do comportamento de cautela se explica pela percepção de que Warsh, embora visto como defensor de juros mais baixos, não representa o afrouxamento agressivo associado a outros nomes considerados por Trump.
Calestine destaca que, apesar de Warsh ser frequentemente descrito como hawkish (mostrando preocupação com a inflação nos EUA), isso pode jogar a favor de emergentes no longo prazo. “Uma postura mais dura com relação à inflação pode fazer com que, depois de um período de juros caindo mais lentamente, os EUA cheguem a uma taxa terminal menor. Com a inflação americana mais controlada, o dólar tende a ficar mais comportado perante o real”, afirma.
Esse ponto encontra eco entre analistas. “Para o Brasil e emergentes, o impacto (da escolha de Warsh) pode ser de pressão via dólar forte e yields globais mais altos no curto prazo”, diz Paula Zogbi, estrategista-chefe da Nomad. “Mas a redução do risco político de cauda pode levar a uma reprecificação global mais saudável.”
Kevin Warsh tem credibilidade institucional e não é disruptivo, opinam economistas
Anúncio de Kevin Warsh para presidência do Fed fez o mercado olhar para a trajetória deste ex-diretor da instituição para tentar antever sua posição em relação aos juros nos EUA
Tesouro Direto resiste a Warsh no Fed e estabiliza na contramão dos Treasuries
Taxas resistem à pressão do exterior, com rendimentos dos Treasuries em alta após Trump escolher Kevin Warsh para o Fed
Calestine concorda que, caso Warsh se mantenha firme no combate à inflação, o Brasil pode até se beneficiar. Um juro americano mais baixo à frente aumenta o diferencial entre a taxa brasileira e a taxa dos EUA, ampliando a atratividade do chamado carry trade. “O investidor estrangeiro passa a ganhar mais só por carregar ativos em real. Isso deixa o Brasil mais atrativo e pode ser muito bom para nossa economia”, diz.
Apesar da cautela dos mercados, o Itaú BBA mantém visão construtiva para a bolsa brasileira. “A tendência do Ibovespa segue em direção aos 200.000 pontos”, escreveram os analistas, destacando que índices setoriais já superaram as máximas de 12 meses e sustentam o movimento de alta.
Para Marcio Riauba, da StoneX, Warsh é um nome com credibilidade e tende a reduzir volatilidade em relação a opções consideradas mais politizadas. Nos últimos meses, o dólar vinha se enfraquecendo diante da expectativa de um Fed mais dovish (brando, indicando queda dos juros) no pós-Powell. “Com Warsh, o mercado entende que não haverá ruptura abrupta”, avalia.
Já Gustavo Cruz, da RB Investimentos, acredita que Warsh deve assumir pressionando por cortes mais rápidos nos juros, ainda que dentro de um perfil técnico. Ele projeta taxas “abaixo de 3% no segundo semestre”. Bruno Takeo, da Potenza Capital, vê uma pausa temporária na rotação para emergentes, dada a leitura de Warsh como mais hawkish.
Calestine, porém, argumenta que o pior cenário — um Fed leniente e suscetível às pressões políticas — foi evitado. “Se o Banco Central americano começa a cortar juros a pedido do presidente para estimular uma economia já aquecida, a inflação poderia se desancorar. Isso exigiria aumentos ainda mais bruscos de juros depois. Um presidente do Fed que obedeça muito ao presidente americano é péssimo para os mercados globais, e isso não parece ser o perfil do Warsh.”
Sobre o movimento conhecido como Sell America (Venda América, levando a uma mudança , ele pondera que a indicação pode até reduzir a intensidade do fluxo, mas não elimina o fator central: a imprevisibilidade da política de Trump. “Ainda não sabemos como Trump pode atuar na política fiscal, externa ou monetária. Então esse trade ainda continua.”
Para o mercado brasileiro, Calestine enxerga descompressão adicional caso o Banco Central sinalize cortes maiores na Selic em março — entre 50 e 75 pontos-base, acima do já precificado. “Isso sim pode limitar perdas e deixar o mercado mais leve.”
No balanço final, o economista vê uma combinação positiva para o Brasil: dólar globalmente mais fraco, ciclo positivo de commodities e juros domésticos em trajetória de queda, com Selic terminal projetada em 12,25% no fim do ano. “Tudo isso tende a ser favorável para o Brasil”, conclui.
The post Da Bolsa ao câmbio: escolha de Warsh para o Fed será freio para mercado brasileiro? appeared first on InfoMoney.
