Por que o mercado brasileiro reagiu tão mal às propostas de André Lara Resende?

Na última terça-feira (3), volta de feriado e primeiro pregão de novembro, os ativos brasileiros tiveram uma sessão de forte aversão ao risco.

O Ibovespa fechou em baixa, perdendo o patamar dos 165 mil pontos no pior momento, pressionado por forte recuo de Petrobras (PETR4) e Vale (VALE3), mas também debilitado por incertezas no mercado sobre o rumo da economia do país.

Índice de referência do mercado acionário brasileiro, o Ibovespa caiu 1,42%, a 165.528,92 pontos, mínima de fechamento desde 19 de janeiro. No pior momento do dia, alcançou 164.446,53 pontos. Na máxima, marcou 168.005,46 pontos.

Já o dólar à vista encerrou o dia com elevação de 0,74%, a R$ 5,4863. Enquanto isso, os juros futuros subiram: no fim da tarde da véspera, a taxa do DI (Depósito Interfinanceiro) para janeiro de 2028 estava em 14,57%, ante o ajuste de 14,48% da véspera. Já a taxa do DI para janeiro de 2035 estava em 15,4%, com elevação ante 15,332% da sessão anterior.

O aumento da desconfiança em torno da disposição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em promover um ajuste fiscal castigou os ativos brasileiros na volta do feriado de Finados.

A descrença em torno do anúncio de medidas para conter os gastos públicos ganhou corpo na semana passada após declarações contrárias ao ajuste fiscal vindas de figuras próximas a Lula. No fim de semana, relatos de que uma ala do governo estaria disposta a encampar as ideias do economista André Lara Resende, um dos pais do Plano Real, de reduzir o ritmo de crescimento da dívida pública via cortes agressivos da taxa Selic aumentaram o desconforto dos investidores.

Para fazer um ajuste fiscal via redução do serviço da dívida, Resende defende que o Banco Central teria de manter o juro básico em um limite que seria a soma da meta de inflação, atualmente em 3%, com o crescimento potencial da economia, estimado em 2,5%.

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, negou na véspera que haja uma reunião marcada entre os dois e disse que a ideia de Resende é incipiente. Economistas também consideram pouco provável que a proposta seja implementada, mas, de qualquer forma, as discussões pressionaram o mercado.

Estrategista-chefe de Macro e Dívida Pública da Warren Investimentos, Luis Felipe Vital avalia que os rumores sobre estabelecer uma meta para Selic compõem um quadro mais amplo de “vácuo” de sinalizações que tem elevado a aversão a risco.

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“O mercado está aguardando que o governo dê alguma sinalização de política econômica a partir de 2027, principalmente na questão das contas públicas. O fato de estar acontecendo esse tipo de debate quer dizer que estamos distantes do momento em que vamos discutir estratégias de ajuste mais rápido nas contas públicas com maior seriedade”, criticou.

“Vamos continuar vendo o mercado assim enquanto não houver nenhum aceno claro em relação ao cenário fiscal. O governo não está trazendo absolutamente nada novo nessa linha e não há nome certo para o Ministério da Fazenda”, afirma o sócio da Valor Investimentos, Daniel Teles, que também citou o ruído gerado no mercado com a proposta de André Lara Resende.

De acordo com Rai Chicoli, estrategista-chefe da Monte Bravo, a dinâmica segue marcada pela incerteza sobre o perfil do próximo governo Lula, pela espera por sinalizações do programa e principalmente dos nomes da equipe econômica. “Em momentos de incerteza, de volatilidade, os investidores ficam mais vendedores do que compradores.”

Conforme Ricardo Trevisan, CEO da Gravus Capital, mesmo com a Fazenda negando a reunião do governo com Lara Resende e qualquer estudo de tabelamento da Selic, o apoio público de nomes próximos ao presidente à proposta já basta para pressionar o câmbio e a parte longa da curva de juros. “O Focus também mostrou piora, com a Selic esperada para o fim de 2027 subindo de 11,75% para 12,50%”, afirma.

Gesner Oliveira, professor da FGV e sócio da GO Associados, ressaltou que as propostas de André Lara Resende recolocam em discussão questões importantes sobre o funcionamento da política monetária, o custo dos juros elevados e sua interação com a política fiscal.

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“O debate acadêmico sobre esses temas é legítimo e necessário. Entretanto, é fundamental distinguir a discussão de alternativas teóricas de uma mudança efetiva na condução da política monetária. A redução sustentável dos juros depende de condições macroeconômicas consistentes, especialmente expectativas de inflação ancoradas, credibilidade institucional e uma trajetória fiscal percebida como sustentável”, apontou.

Para ele, a preocupação do mercado decorre da possibilidade de que propostas de redução acelerada dos juros sejam interpretadas como sinal de menor compromisso com a estabilidade de preços ou com a autonomia operacional do Banco Central.

Nesse contexto, a reunião do Copom desta quarta, avalia o economista, assume também uma dimensão institucional. O Comitê terá a oportunidade de reafirmar que suas decisões são orientadas por critérios técnicos e pelo cumprimento da meta de inflação.

“É importante lembrar que juros elevados representam custos expressivos para o investimento, o crescimento econômico e as próprias contas públicas. Portanto, reduzir estruturalmente os juros é um objetivo desejável”, aponta.

O desafio, aponta, não é simplesmente baixar a Selic, mas criar condições para que os juros possam cair de maneira sustentável, sem provocar desvalorização cambial, aceleração inflacionária ou aumento dos prêmios de risco. “A credibilidade da política monetária e a responsabilidade fiscal são complementares nesse processo”, reforça o especialista.

(com Estadão Conteúdo e Reuters)

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