
Pandemia de Covid-19, guerra na Ucrânia, tarifaço de Trump, guerra no Irã, El Niño, crise hídrica, tensão fiscal. Nos últimos seis anos, o Brasil sofreu pelo menos sete choques inflacionários – e cada um deles chegou ao bolso do consumidor de uma forma diferente. “Esses choques não são eventos isolados. Eles se conectam, às vezes um alimentando o outro, e juntos explicam por que o Banco Central aqui no Brasil e lá nos Estados Unidos faz o que faz, por que o dólar oscila do jeito que oscila e por que os seus investimentos reagem da forma que reagem”, afirma Clara Sodré, analista de fundos da XP, no Espresso Outliers InfoMoney.
A pandemia e a armadilha da liquidez
Um marco nessa história é março de 2020, quando a Organização Mundial de Saúde definiu a Covid-19 como uma pandemia: fábricas fecharam, voos foram cancelados, lojas abaixaram as portas ao redor do mundo. A resposta dos governos foi injetar dinheiro na economia.
Nos Estados Unidos, foram cerca de US$ 5 trilhões em pacotes de estímulo e crédito barato. No Brasil, o auxílio emergencial chegou a mais de 65 milhões de pessoas e, entre agosto de 2020 e março de 2021, a taxa Selic caiu para 2% ao ano – o menor nível da história.
Os pacotes de incentivo faziam sentido nesse contexto: como medidas emergenciais. “A lógica era colocar dinheiro para circular agora e depois, caso necessário, viriam os ajustes. O problema é que o ‘depois acabou’ chegando mais rápido do que todo mundo esperava”, diz Clara.
A chegada das vacinas para Covid, em 2021, permitiu a retomada da vida social. As pessoas voltaram a gastar com intensidade, mas as cadeias de produção levam tempo para se recuperar. Faltava semicondutor para fazer carro, contêiner para transportar mercadorias, mão de obra nos portos. O frete internacional triplicou. O combustível subiu quase 50% no ano. O IPCA fechou 2021 em 10% – o maior nível desde 2015 e o dobro da meta.
A guerra como acelerador
O mundo ainda se recuperava do choque da Covid quando, em 24 de fevereiro de 2022, a Rússia invadiu a Ucrânia. De um lado, o segundo maior exportador de petróleo do planeta e um dos maiores produtores de gás natural, fertilizantes, trigo e milho. Do outro, o maior exportador de óleo de girassol, quarto maior exportador de milho e quinto maior exportador de trigo. “Do dia para a noite, comida e energia viraram armas geopolíticas”, afirma Clara. O petróleo disparou, o trigo subiu mais de 60% em semanas e a inflação americana chegou a 9,1% – a maior em 40 anos.
Os bancos centrais entraram em modo de emergência. O Fed subiu os juros americanos de zero para mais de 5% em menos de dois anos. No Brasil, o IPCA bateu 12,3% em abril de 2022 – o pico do ciclo – e a Selic foi a 13,75%. O ano fechou com inflação em 5,79%, longe do pico, mas o remédio tinha um custo alto: juros altos por mais tempo.
Os choques domésticos
O ano de 2023 trouxe alívio ao Brasil: o IPCA fechou em 4,62%, dentro da meta pela primeira vez em muito tempo. Mas uma tensão estrutural se formava. O mercado ficou cético quanto ao arcabouço fiscal do novo governo, que dependia do crescimento de receita para funcionar. “Quando o investidor duvida da trajetória fiscal de um país, ele vende a moeda daquele país. E quando o real desvaloriza, tudo que o Brasil importa fica mais caro”, explica Clara. Um choque silencioso – não nos preços, mas na confiança – preparou o terreno para o que viria em 2024.
- Veja mais: Boletim Focus eleva projeções de inflação e Selic para 14% em 2026
- E também: BC usou “bengala para justificar cortes” e arranhou reputação, diz ex-Fazenda
Naquele ano, o Brasil lidou com seus próprios problemas. O El Niño provocou seca extrema no Centro-Oeste e no Sul, derrubando colheitas de soja, milho e café. A carne subiu mais de 20% no ano, o café disparou 40%, o tomate e a cenoura chegaram a duplicar de preço em alguns meses. O dólar, que terminara 2023 a R$ 4,90, fechou o ano a R$ 6,30. A Selic voltou a subir. O IPCA encerrou 2024 em 4,83% – acima da meta.
Liberation Day e o conflito no Irã
Em abril de 2025, Trump assinou o que chamou de Liberation Day: o maior aumento de tarifas americanas desde a Grande Depressão. Para o Brasil, o tarifaço teve efeito indireto. O câmbio ficou mais volátil e o valor das commodities oscilou. Considerando os efeitos do choque aqui e em outros países, houve uma surpresa positiva: o real valorizou quase 16% desde o pico de 2024. Isso ajudou a desinflação brasileira em 2025 e permitiu ao IPCA convergir para a meta.
- Veja mais: Petróleo em queda livre com acordo EUA-Irã: quais os efeitos para a Bolsa brasileira?
- E também: Abertura de Ormuz inunda rapidamente os mercados com petróleo – e traz nova questão
Mas 2026 trouxe mais um choque geopolítico: o conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã, no Oriente Médio. O estreito de Ormuz – por onde passa 20% de todo o petróleo que circula no mundo – foi fechado. Os preços de energia dispararam e a OCDE revisou a projeção de inflação do G20 para 4% ao ano. O Brasil chega a 2026 com IPCA em 4,4% e Selic a 15%, num ciclo de flexibilização que depende, em grande parte, do que acontece lá fora.
Como proteger o dinheiro da inflação
Para proteger o dinheiro de choques inflacionários, Clara recomenda diversificação de carteira, presença de ativos atrelados ao IPCA e um olhar global para os investimentos. Alocar recursos em diferentes geografias é uma forma de atenuar impactos locais.
- Veja mais: “Único almoço grátis” do mercado: Por que a diversificação é a sua maior aliada em 2026
- E também: Investidores quase triplicam compras de Tesouro IPCA+ em meio a juro recorde de 8%
The post Sete choques em seis anos: como a inflação global chegou ao bolso do brasileiro appeared first on InfoMoney.